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O
manto sagrado -- 26/04/2004 - 09:56 (Carlos Luiz de Jesus
Pompe)
Em
Turim, a Igreja Católica vela o pano que cobriu o corpo de Jesus
Cristo, quando retirado da cruz. Nele há uma figura que seria o
corpo estampado com o sangue do filho de Deus. Neste abril, um
estudo mostrou a sombra de uma segunda imagem da face de um homem na
parte de trás do lençol, de acordo com relatório publicado pelo
Instituto de Física de Londres. Esta parte estava sob um pedaço de
pano costurado por freiras em 1534, depois que ele foi danificado
por fogo. Mas foi exposta em 2002, durante projeto de restauração,
coordenado pelo professor Giulio Fanti, da Universidade de Pádua,
na Itália. Ele diz que ter visto uma imagem em fotografias do
manto, com "características como nariz, olhos, barba e
bigode" claramente visíveis e algumas leves diferenças em
relação ao rosto conhecido. Por exemplo, o nariz, na parte de trás,
"mostra ambas as narinas, ao contrário da parte da frente, em
que a narina direita é menos evidente".
Em
1988, cientistas de três universidades concluíram, através do isótopo
de carbono 14, que o tecido havia sido produzido entre 1260 e 1390,
muito tempo após a data atribuída à morte de Jesus. O Cardeal de
Turim, Anastasio Alberto Ballestrero, admitiu que o manto era falso.
Mas, como escreveu Umberto Eco, no seu "Baudolino", as relíquias
"são de origem duvidosa, mas o fiel que vai beijá-las sente a
emanação de aromas sobrenaturais. É a fé que as faz verdadeiras,
não são elas que fazem verdadeira a fé". Em Brasília, por
exemplo, folhetos turísticos indicam que a cruz metálica no topo
da catedral da Capital Federal, abençoada pelo papa Paulo VI, contém
uma lasca daquela em que Jesus foi crucificado.
Em
1977 foi criado, nos Estados Unidos, o Shroud of Turin Research
Project (Projeto de Pesquisa do Manto de Turim), formado por 39
cristãos e um agnóstico: Walter C. McCrone, único microscopista
especializado em química forense da equipe. Quando McCrone
encontrou evidência de têmpera baseada em ocre vermelho com
aglutinante de colágeno e afirmou que o manto era uma pintura,
foi expulso do grupo...
Os defensores da autenticidade do pano recorrem à exatidão anatômica
e das evidências de torturas que a figura apresenta. Mas são
argumentos difíceis de comprovar. Por exemplo, a imagem do pano
apresenta o cabelo, o bigode e a barba brancos, o que não combina
com as representações de um Jesus morto aos 33 anos. Além do
mais, a imagem do sudário somente seria um negativo se, deixando de
lado as manchas de sangue, representassem
uma estátua ou um baixo relevo que só apresentasse uma única cor
tanto para a pele como para o cabelo e a barba.
Outro detalhe incongruente: as imagens de sangue que aparecem no
rosto e no corpo do sudário. Quando alguém recebe um corte no crânio,
o sangue empapa o cabelo e um pano em contato com esse crânio ficará
com manchas de sangue. Mas os cabelos no
sudário estão pintados com fios de sangue bem definidos.
As manchas de sangue seco se tornam marrons escuras com o tempo,
mas no sudário estão vermelhas e
formadas, segundo McCrone, por partículas de óxido de ferro (ocre
vermelho) e cristais de cinábrio (vermelhão).
No
rosto do sudário, os cabelos caem para
os lados da cabeça em direção aos ombros, o que é incompatível
com a posição de um corpo deitado, pois os cabelos
cairiam para trás da cabeça. Os braços, por sua vez, estão
semiflexionados, para que as mãos ocultem os genitais, mas os
ombros são representados como se estivessem encostados no solo. Com
isso, os braços ficam desproporcionalmente longos, como os de símios
— foi a forma que o pintor encontrou para não deixar exposto o
pênis.
Outra
impossibilidade semelhante à das mãos sobre os genitais ocorre com
os pés. As pernas estão retas, mas a planta dos pés é
representada em contato com o solo. Os joelhos deveriam estar
flexionados para permitir sua impressão.
 Mas
talvez a incoerência mais grave seja o aspecto pictórico da
imagem. Uma figura envolta em um pano deixaria uma marca de
contato deformada em relação ao modelo real. As
orelhas apareceriam vistas de lado no pano. Algo semelhante
aconteceria com qualquer característica facial. A ausência desta
deformação indica que o manto não teve contacto com um cadáver,
mas que foi pintado para que parecesse com as representações
tradicionais de Jesus.
Conforme
afirma Hernán Toro, docente do Centro de Ciência Básica na Escola
de Engenharia da Universidade Pontifícia Boliviana, autor do artigo
"As anomalias ignoradas do 'sudário' de Turim", que
embasou a parte analítica deste escrito, "a
autenticidade do sudário não se sustenta ante uma simples análise
lógica da imagem". |