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O FIM NÃO ESTÁ PRÓXIMO
“O
pânico aumenta a cada dia. Na Internet, ima verdadeira proliferação
de sites e blogs discutem o que, para muitos, é inevitável: segundo
profecia maia, ‘observações’ astronômicas e conclusões de videntes
espíritas, o ano de 2012 trará a destruição de nosso planeta. Se não
do planeta inteiro, a de grande parte da vida nele. Os mais
espertos, claro, comprarão os livros e os kits de sobrevivência
disponíveis na Internet. Grupos cristãos falam do Armagedon, o
encontro entre bem e o mal que marca o fim dos tempos. Blogs narram
conspirações de governos e cientistas que escondem a verdade. Por
quê? Para evitar o caos, a desintegração da sociedade. Se
soubéssemos que o fim está chegando, nos autodestruiríamos. Ma é só
visitar sites como http://yowusa.com/planetx/#feature para descobrir
a ‘verdade’. Afinal, faltam apenas quatro anos para o fim!
Nostradamus, como sempre, também havia previsto esse fim de mundo.
Aliás, parece que ele previu vários deles aos quais, felizmente,
conseguimos sobreviver. Fico impressionado com a capacidade das
pessoas em se deixar levar por invenções como essas. Não existe
absolutamente nada de verdadeiro nos ditos ‘fatos científicos’ que
levarão à terrível destruição do mundo em 2012. Não existe um
planeta X, ou Nibiru, cuja órbita alongada aproxima-o da Terra de
tempos em tempos, causando devastações apocalípticas. Não foi ele o
responsável pela destruição dos dinossauros, e sim a colisão com um
asteróide de 10 km de diâmetro. Sem dúvida, planetas e objetos
celestes estão sendo sempre descobertos. Em 2005, um novo planeta
foi observado além da órbita de Plutão pelo grupo do astrônomo
Michael Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o Caltech.
A uma distância média do Sol 97 vezes maior do que a da Terra, o
planeta – chamado temporariamente de 2003 UB313 – tem uma massa 1,5
vez maior do que Plutão. E é completamente inofensivo.
Muitos dizem que, no calendário maia, o dia 21 de dezembro de 2012
marca o fim do mundo. O que ocorre é que, nesta data, termina a
contagem deste ciclo de tempo, o de número treze (que azar!), que
durou 5.125 anos. Existe apenas uma inscrição incompleta nas ruínas
de El Tortuguero, em Chiapas (México), e dela foi criada a
conjectura de que o fim do tal ciclo levaria à destruição do mundo e
a criação de outro. Como os maias tinham uma astronomia de alta
precisão, apesar de não terem telescópios, devemos concluir que a
previsão deve estar correta, e o fim é mesmo inevitável.
Segundo a astronomia moderna, porém, não há nenhum objeto celeste em
rota de colisão com a Terra no momento. Mas é verdade que isso
ocorre de tempos em tempos. Em 1908, um fragmento de um cometa ou
asteróide explodiu sobre uma região remota da Sibéria, destruindo
2.000 km2 de floresta. Esse tipo de fenômeno é impossível de ser
detectado com antecedência devido ao pequeno tamanho do bólido – no
caso, em torno de 30 metros de diâmetro; É também verdade que
cometas podem penetrar incógnitos a região central do sistema solar
(onde residimos) até estarem próximos da órbita de Júpiter, o que
nos daria em torno de dois anos de aviso prévio. Mas a possibilidade
de uma colisão com a Terra é muito, muito pequena. E, com esse
prazo, seria possível enviar uma sonda para tentar desviar o cometa.
Ou seja, só a ciência poderá nos salvar.
É preciso separar nossas ansiedades e o fato de vermos o mundo em
crise de um medo religioso de destruição. Se temos a necessidade de
uma nova coincidência para lidarmos com os problemas da nossa
geração, o melhor a fazer é nos ajudarmos uns aos outros e não
sucumbir à propaganda mentirosa dos que querem se aproveitar de
nossas inseguranças. Não é à toa que Carl Sagan chamou seu último
livro de ‘O mundo Assombrado por Demônios’ e deu-lhe o subtítulo ‘a
ciência vista como uma vela no escuro’. Será que os vários fins de
mundo de profecias passadas não são suficientes para nos convencer
de sua tolice? Ou vamos ter de esperar mais quatro anos?”
(Marcelo Gleiser - astrofísico e professor do Dartmouth College, nos
Estados Unidos, e autor de cinco livros sobre ciência e conhecimento
-, Galileu, julho/2008, pág. 50).
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