Foi
à procura de ouro que, no distante 1701,
o bandeirante João Leite da Silva Ortiz chegou à serra de
Congonhas. Em lugar do metal, encontrou uma bela paisagem, de clima ameno
e próprio para a agricultura. Resolveu ficar: construiu a Fazenda do Cercado,
onde desenvolveu uma pequena plantação e criou gado.
O progresso da fazenda logo atraiu outros moradores e um arraial começou a se
formar em seu redor. Viajantes que por ali passavam, conduzindo o gado da
Bahia em direção às minas, fizeram da região um ponto de parada.
O povoado foi batizado de Curral del Rei. Da serra de Congonhas mudou-se o antigo nome:
é hoje a nossa Serra do Curral. Nossa Senhora da Boa Viagem, a quem os
forasteiros pediam proteção, tornou-se padroeira do local.
Aos poucos, o Curral del Rei foi crescendo, apoiado na pequena lavoura, na
criação e comercialização de gado e na fabricação de farinha. Algumas
poucas fábricas, ainda primitivas, instalaram-se pela região: produzia-se
algodão, fundia-se ferro e bronze. Das pedreiras, extraía-se granito e calcário.
Frutas e madeiras eram vendidas para outros locais.
Com a decadência da mineração, o arraial se expandiu. Das 30 ou 40 famílias
existentes no início, saltou para a marca de 18 mil habitantes. Elevado à
condição de Freguesia, mas ainda subordinado a Sabará, o Curral
del Rei englobava as regiões de Sete Lagoas, Contagem, Santa Quitéria
(Esmeraldas), Buritis, Capela Nova do Betim, Piedade do Paraopeba, Brumado
Itatiaiuçu, Morro de Mateus Leme, Neves, Aranha e Rio Manso. Vieram as primeiras escolas, o comércio se desenvolveu.
No centro do arraial, os devotos ergueram a Matriz de Nossa Senhora da Boa
Viagem.
Esse ciclo de prosperidade, contudo, durou pouco. As diversas regiões que
constituíram o arraial foram se tornando autônomas, separando-se dele. A
população rapidamente diminuiu e a economia local entrou em decadência. Já
no final do século passado, restavam mais de 4 mil habitantes. Sua rotina era
simples e monótona. Começava cedo, no trabalho de casa ou na lavoura, e
terminava às dezenove horas, quando muitos já começavam a se recolher.
Durante o dia, a Farmácia Abreu era o ponto de encontro preferido para o
bate-papo. à noite, as mulheres faziam novenas, enquanto os homens
improvisavam um botequim no Armazém Esperança. De vez em quando, uma
serenata fazia as janelas se abrirem. Apenas nos fins-de-semana o arraial
ganhava vida, quando os moradores das redondezas vinham ouvir a missa ou
visitar parentes e fazer compras. Em datas especiais, o arraial tornava-se
mais alegre: nas Festas Juninas, no Natal ou no Dia da Padroeira os festejos
eram certos.
A Proclamação da República, em 1889, vem trazer aos curralenses a esperança de
transformações. Para entrar na era que então se anunciava, deixando para trás
o passado monárquico, aos sócios do Clube Republicano do arraial propuseram
a mudança de seu nome para Belo Horizonte. Foi nesse clima de euforia que os
horizontinos receberam a notícia da nova construção da nova capital.
Durante três dias o arraial se pôs em festa, com missa solene, discursos,
bandas de música e bailes. Seus habitantes já sonhavam com modernização e
o progresso que a capital traria para a região. Nem imaginavam que, nos
planos dos construtores, não havia espaço reservado para eles.
Mudança da Capital
A luta pela mudança
A
discussão sobre a mudança da capital mineira não surgiu no século passado;
era, ao contrário, uma idéia muito antiga. A primeira tentativa de
transferir a sede do Governo para uma cidade diferente de Ouro Preto data de
1879, quando os inconfidentes planejaram instalar a capital de sua república
em São João Del Rei. Depois disso, mais quatro tentativas foram feitas,
todas fracassadas. A questão só veio a ser considerada após a Proclamação
da República. Só que dessa vez, não se trava de uma simples transferência,
mas a construção de uma nova cidade.
Uma série de fatores favorecia a idéia de mudança. Em primeiro lugar, para
se destacar o novo cenário republicano, Minas Gerais precisava mostrar-se
politicamente unida e forte. A construção de uma nova capital, localizada no
centro geográfico do Estado, poderia facilitar o equilíbrio das diversas facções
políticas que então disputavam o poder.
Os republicanos também desejavam promover o progresso de Minas Gerias,
tornando-o um Estado industrializado e moderno. A cidade de Ouro Preto não
oferecia condições adequadas para o crescimento econômico esperado. Os
transportes e as comunicações eram dificultados pelo relevo acidentado da
cidade e as estruturas de saneamento e higiene não comportavam mais um
aumento da população. A construção de uma nova capital, planejada de
acordo com essas exigências era a solução para o problema do crescimento.
Um outro fator contribuiu para fortalecer a idéia de mudança. Ouro Preto,
cidade histórica, guardava em sua arquitetura uma série de símbolos e
marcas do passado colonial que os republicanos queriam enterrar. com suas
ruelas e becos, suas igrejas barrocas e suas casas, porões e senzalas, a
velha capital lembrava os anos da dominação portuguesa, das conspirações e
da escravidão. Uma nova cidade, planejada segundo os valores modernos, seria
o símbolo de uma nova era.
Em 1891, o presidente do Estado, Augusto de Lima, formulou um
decreto determinando a transferência da capital para um lugar que oferecesse
condições precisas de higiene. Adicionada à Constituição Estadual, a lei
provocou muitos protestos da população ouropretana. Os mineiros dividiram-se
entre os "mudancistas", favoráveis à nova capital, e os "não-mudancistas".
Cada um desses grupos fundou seu jornal, promovendo reuniões e debates.
O Governo Estadual, enfrentando essas disputas, criou um Comissão de Estudos
para indicar, dentre cinco localidades, a mais adequada para a construção da
nova cidade. O Congresso mineiro, a quem cabia a decisão final, votou a favor
de Belo Horizonte. Assim, a 17 de dezembro de 1893, a lei n.º 3 foi
adicionada à Constituição Estadual, determinando que a nova sede do Governo
fosse erguida em Belo Horizonte, chamando-se Cidade de Minas.
No prazo máximo de quatro anos, a capital deveria ser inaugurada. A lei
criava ainda a Comissão Construtora, composta de técnicos responsáveis pelo
planejamento e execução das obras. Em sua formação, estavam alguns dos
melhores engenheiros e arquitetos do país, chefiados por Aarão Reis.
O Planejamento
O traçado da cidade e a exclusão social
Uma
cidade ordenada, funcionando como um organismo saudável esse era o objetivo
dos engenheiros e técnicos que idealizaram Belo Horizonte. Para alcançá-lo,
era necessário projetar um cidade física e socialmente higiênica uma cidade
saneada, livre de doenças, mas também livre de desordens e revoluções.
O projeto criado pela Comissão Construtora, finalizado em maio de 1895,
inspirava-se no modelo das mais modernas cidades do mundo, como Paris e
Washington. Os planos revelavam algumas preocupações básicas, como as condições
de higiene e circulação humana. Dividiram a cidade em três principais
zonas: a área central urbana, a área suburbana e a área rural.
No centro, o traçado geométrico e regular estabelecia um padrão de ruas
retas, formando uma espécie de quadriculado, Mais largas, as avenidas seriam
dispostas em sentido diagonal. Esta área receberia toda a estrutura urbana de
transportes, educação, saneamento e assistência médica. Abrigaria, também,
os edifícios públicos dos funcionários estaduais. Ali também deveriam se
instalar os estabelecimentos comerciais. Seu limite era a Avenida do Contorno,
que naquela época se chamava de 17 de Dezembro.
A região suburbana, formada por ruas irregulares, deveria ser ocupada mais
tarde e não recebeu de imediato a infra-estrutura urbana. A área rural seria
composta por cinco colônias agrícolas com inúmeras chácaras e funcionaria
como um cinturão verde, abastecendo a cidade com produtos hortigranjeiros.
A implantação de tão grandioso projeto tinha, porém, uma exigência: a
completa destruição do arraial que ali se localizava e a transferência de
seus antigos habitantes para outro local. Rapidamente, os horizontinos
tiveram suas casas desapropriadas e demolidas, sendo-lhes oferecidos novos imóveis
a um preço muito alto. Sem condições de adquirir os valorizados
terrenos da área central, eles foram empurrados para fora da cidade, indo se
refugiar em Venda Nova ou em cafuas na periferia.
A capital traçada pela Comissão Construtora era um lugar elitista. Seus espaços
estavam reservados somente aos funcionários do Governo e aos que tinham
posses para adquirir lotes. Acreditava-se que os problemas sociais, como a
pobreza, seriam evitados com a retirada dos operários, assim que a construção
da cidade estivesse concluída. Mas, na prática, não foi isso que aconteceu.
Belo Horizonte foi inaugurada às pressas, estando ainda inacabada. Os operários,
aglomerados em meio às obras, não foram retirados e, sem lugar para ficar,
assim como os horizontinos, formaram favelas na periferia da cidade. A
primeira, a do Leitão - ficava nas proximidades do atual Instituto de Educação,
em plena Avenida Afonso Pena. Essa massa de trabalhadores que não eram
considerados cidadãos legítimos de Belo Horizonte revelava o grau de injustiça
social existente nos seus primeiros anos de vida.
Os Primeiros Anos
A cidade do tédio
Belo
Horizonte foi inaugurada a 12 de dezembro de 1897,
por uma exigência da Constituição do Estado. Entretanto, parte de suas
construções não havia sido concluída e algumas de suas ruas e avenidas
eram apenas "picadas" abertas no meio do mato. A crise econômica
que tomava conta do país e do Estado tinha feito com que muitas obras
ficassem paralisadas, à espera de recursos. O comércio e a indústria ligada
à construção civil, que tinham se desenvolvido bastante nos anos
anteriores, agora enfrentavam dificuldades. A cidade não se industrializou no
ritmo que se esperava e permaneceu sem atividades econômicas expressiva
durante anos. Os trabalhadores foram os mais prejudicados os que não perderam
o emprego tiveram seus salários atrasados durante meses.
Tudo isso contribuía para tornar a Capital uma cidade entediante e sem graça.
Sua aparência inacabada e empoeirada dava a impressão de abandono. As ruas e
avenidas largas demais para uma população não muito numerosa pareciam estar
sempre vazias. Para piorar a situação, as diversões eram poucas e não
conseguiam espantar a decepção e a tristeza dos primeiros habitantes.
Na área central, a Rua da Bahia era território de elite. Nela, ficava o único
teatro da cidade o Soucasseaux, uma espécie de um barracão coberto de zinco,
onde se apresentavam companhias de teatro e música e onde se improvisava um
botequim. Nessa rua também ficavam os principais bares e cafés, lugar onde
os homens se encontravam para conversar, falar de política e da vida. Ao
anoitecer, a rua virava palco para o footing (moças e rapazes desfilavam,
trocando olhares, numa espécie de namoro bem comportado).
Na tentativa de espantar o tédio, os jovens fundavam clubes como o Rose, o
Violetas, o dos Jardineiros do Ideal, o Santa Rita Durão e o Elite. Além de
festas e bailes, esses Grêmios tinham a intenção de promover a literatura.
Outros clubes eram criados durante os carnavais e os mais famosos foram os
Matakins, os Diabos de Luneta e os Diabos de Casaca, que promoviam festas,
desfiles de carros alegóricos, batalhas de confetes, serpentinas e, é claro,
lança-perfume.
O Parque Municipal (na época quatro vezes maior) era muito freqüentado nos
fins-de-semana. Ali, a sociedade encontrava espaço para praticar esportes,
passear ou fazer piqueniques, enquanto bandas tocavam "retretas".
Também era lá que as paróquias comemoravam datas religiosas, com quermesses
e barraquinhas.
A população pobre e os operários, contudo, não tinham acesso a essas
formas de lazer. Preferiam os botequins nos bairros, os jogos de bola e a tômbola,
uma espécie de bingo onde os prêmios não valem dinheiro. É que eles viviam
em locais distantes do centro e sua condição financeira os impedia de
participar das diversões pagas. Além disso, na área central eles eram alvo
fácil da polícia, que, por causa de um simples passeio, podia prendê-los,
alegando "vadiagem".
Progresso
em marcha lenta
Nas duas primeiras décadas deste século, Belo Horizonte viveu,
alternadamente, períodos de grande crise e surtos de desenvolvimento. As
fases de maior crescimento corresponderam aos anos de 1905, 1912-13 e 1917-19.
Aos poucos, pequenas fábricas começaram a funcionar na cidade, ampliou-se o
fornecimento de energia elétrica, retomaram-se as obras inacabadas,
expandiram-se as linhas de bonde, criaram-se praças e jardins e a cidade
ganhou arborização. O número de empregos cresceu e a Capital passou a
atrair mais habitantes.
A vida social também começou a se agitar, com a substituição do teatrinho
Soucasseaux pelo elegante Teatro Municipal (1909) e com a inauguração de
diversos cinemas. Freqüentar as salas dos cine-teatros Colosso, Comércio,
Familiar, Progresso, Bijou e Paris tornou-se não só uma obrigação para os
belo-horizontinos, como também um pretexto para encontros e conversas. Nessa
época em que cinema fazia muito sucesso, nasceu o gosto do belo-horizontino
pela moda, com famosas costureiras imitando os modelos vestidos pelas atrizes
mais conhecidas.
Foi também com o crescimento da cidade que a massa de trabalhadores começou
a lutar contra as injustiças sociais. A primeira grande greve ocorreu em 1912
e paralisou a cidade por 15 dias. Liderado por trabalhadores da construção
civil, que defendiam uma jornada de trabalho de oito horas, o movimento teve
apoio de grande parte da população. Mobilizando-se através de greves, os
operários conseguiram ser reconhecidos como cidadãos, com direito a
reivindicar melhores condições de trabalho, educação, transporte, saúde e
moradia.
Anos 20 e 30
A poesia toma conta da cidade
Os
anos vinte marcam uma época romântica da história da capital. Entre
passeios de bonde e sessões de cinema, entre conversas nos cafés e o
footing, a vida seguia alegre. Belo Horizonte era a "Cidade-Jardim"
ou "Cidade Vergel", onde o verde das árvores saltava das ruas e
invadia as casas, tomando quintais e pomares.
Nesse período, a capital viu nascer a geração de escritores modernistas que
iria se destacar no cenário nacional. Carlos Drumond de Andrade, Cyro dos
Anjos, Luís Vaz, Alberto Campos, Pedro Nava, Emílio Moura, Milton Campos, João
Alphonsus, Abgar Renault e Belmiro Braga, reunidos no Bar do Ponto, no Trianon
ou na Confeitaria Estrela, eram rapazes inquietos que mudaram o panorama da
literatura brasileira.
No campo das artes e da cultura, a cidade experimentou um grande
desenvolvimento. Enquanto o Teatro Municipal vivia seus anos de glória, novas
salas de cinema eram inauguradas como os cines Pathê, Glória, Odeon e
Avenida. Em 1926, o maestro Francisco Nunes fundou o Conservatório Mineiro de
Música. No ano seguinte, era criada a Universidade de Minas Gerais. Em 1929,
fundou-se Automóvel Clube, ponto de encontro da elite belo-horizontina.
Como um reflexo do fim da I Guerra Mundial, em 1918, a indústria de Belo
Horizonte ganhou impulso na década de vinte. Os serviços urbanos foram
ampliados para atender a uma população sempre crescente. Parecia,
finalmente, que a modernidade tinha chegado à Capital. Inauguraram-se grandes
obras, como o viaduto de Santa Tereza, a nova Matriz da Boa Viagem e o Mercado
Municipal. Os automóveis circulando pelas ruas tornaram-se comuns, exigindo a
criação de um código de trânsito e da primeira auto-escola. Surgiram também
os auto-ônibus, complementando p serviço dos bondes.
Como prova do desenvolvimento e do prestígio, Belo Horizonte recebeu a visita
dos reis da Bélgica, em 1920. Na ocasião, toda a Praça da Liberdade foi
reformulada, adquirindo o seu aspecto atual. Em 1922, para comemorar os cem
anos da Independência Brasileira, a Praça 12 de Outubro passou a se
chamar Praça Sete de Setembro e ganhou o famoso "Pirulito".
Essa onda de progresso continuou ao longo da década de 30. Na periferia,
surgiram novos bairros. Cresceram nessa época Lourdes, Barreiro, Nova Suíça,
Gameleira, Renascença, Sagrada Família e Parque Riachuelo. Muitas favelas
também começaram a se formar. A expansão da cidade aconteceu sem um maior
controle ou planejamento e isso trouxe sérios problemas urbanos. Muitos dos
novos bairros não possuíam os serviços básicos de água, luz e esgotos.
Enquanto isso, o centro permanecia relativamente vazio. Na arquitetura,
surgiram novidades: o primeiro edifício de dez andares e um novo estilo de
fachadas, como a do Cine Brasil.
A Revolução de 3 de outubro de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder,
também marcou a história da cidade. Tomada de surpresa, a população
assistiu à troca de tiros entre revolucionários e as forças federais, no
cerco ao Quartel do 12º RI. Nos anos seguintes, a ditadura do Estado Novo
traria o fechamento do Poder Legislativo, o controle da imprensa e o clima
tenso da repressão. Como conseqüência da política de modernização da
economia implantada por Vargas, as bases para o desenvolvimento industrial da
cidade foram lançadas, criando-se a zona industrial de Belo Horizonte.
Dois acontecimentos importantes na década foram o 2º Congresso Eucarístico
Nacional, em 1936, que reuniu milhares de católicos na Praça Raul Soares, e
a Exposição de Arte Moderna, no mesmo ano. O período viu, ainda, nascerem
as duas primeiras rádios da cidade a Rádio Mineira (1931) e a Rádio
Inconfidência (1936). Com seus programas de auditório, transmitidos ao vivo,
elas viveriam seus anos dourados na década seguinte. A capital começava a
amadurecer.
Anos 40 e 50
Nasce uma moderna metrópole
Os
anos quarenta trazem a modernidade e dão um ar de metrópole à Belo
Horizonte. Nessa época, a capital ganhou várias indústrias, abandonando seu
perfil de cidade administrativa. O impulso para isso foi dado pela criação
de um Parque Industrial, em 1941. O setor de serviços também começou a
crescer com o fortalecimento do comércio. O centro da cidade tornou-se, então,
uma área valorizada, principalmente para a construção de edifícios, e
passou a sofrer a especulação imobiliária.
O grande responsável pela transformação de Belo Horizonte foi o prefeito
Juscelino Kubitschek. Com o objetivo de renovar a capital, promovendo um surto
de desenvolvimento e modernização, JK realizou diversas obras que projetaram
internacionalmente o nome da cidade.
A mais importante delas foi o Complexo Arquitetônico da Pampulha inaugurado
em 1943. Desenhado pelo jovem arquiteto Oscar Niemeyer, o complexo era formado
por quatro obras principais a Igreja de São Francisco de Assis, a Casa do
Baile, o Cassino e o Iate Golf Clube instaladas às margens da lagoa
artificial. Com suas linhas originais e modernas, Oscar Niemeyer fez da
Pampulha um dos maiores exemplos da arquitetura modernista brasileira.
Também foi uma iniciativa de Juscelino Kubitschek, a construção de um
conjunto habitacional no bairro São Cristóvão, localizado na Avenida Antônio
Carlos, que, na época se chamava Avenida Pampulha. O Conjunto IAPI (Instituto
de Aposentadorias e Pensões dos Industriários), como foi denominado, surgiu
como uma alternativa para o problema da moradia na cidade e como uma tentativa
da Prefeitura de ordenar a região da Lagoinha. Em 1941, também com projeto
de Oscar Niemeyer, o Palácio da Artes começou a ser construído.
Um pouco mais tarde, já no final da década, um outro marco na arquitetura da
capital seria inaugurado: o Edifício Acaiaca, na Avenida Afonso Pena. Com sua
fachada de linhas retas e sóbrias, onde se destacavam as faces de dois índios,
o Acaiaca era o maior e mais moderno prédio de Belo Horizonte, com os
elevadores mais velozes da cidade. Nessa época, ainda aconteceu a construção
do Teatro Francisco Nunes (1949), no Parque Municipal, e da primeira estação
rodoviária da cidade.
Se a marca dos anos 40 foi a modernização da arquitetura da cidade, os anos
50 ficariam conhecidos como a década da indústria, em razão do surto de
desenvolvimento alcançado pela capital. A criação da Cemig, em 1952, e o
desenvolvimento da Cidade Industrial, nas proximidades de Belo Horizonte
(Contagem) são dois fatores que explicam esse crescimento.
Nessa década, caracterizada pelo grande êxodo rural, a população da cidade
dobra de tamanho, passando de 350 mil para 700 mil habitantes. Surgem novos
bairros, como o Sion e o São Pedro. Uma nova avenida é aberta, sendo chamada
de Cristiano Machado. Os problemas urbanos e a falta de moradia tornam-se mais
graves. Preocupado com o crescimento desordenado da cidade, o prefeito Américo
René Gianetti dá início à elaboração de um Plano Diretor para Belo
Horizonte.
A cidade torna-se vertical com uma série de prédios cada vez mais altos
sendo construídos. É dessa época o Edifício Clemente Faria, feito para ser
a sede do Banco Lavoura (atual Banco Real), na Praça Sete. Projetados por
Oscar Niemeyer, o Edifício JK, o Edifício do Bemge, o prédio do Colégio
Estadual Milton Campos (atual Estadual Central), o Edifício Niemeyer e a sede
da Biblioteca Pública Estadual são belos exemplares da arquitetura moderna
caracterizados pela simplificação de formas e pelo uso de esquadrias metálicas,
concreto, vidros e revestimentos de mármores e pastilhas.
Foi nos anos 50 que a cidade passou a ser influenciada pelo estilo de vida
americano. Aquela era a época das grandes orquestras, que faziam sucesso não
apenas no rádio, como também na recém-inaugurada TV Itacolomi. Nas boates e
nos clubes cada vez mais numerosos tinham lugar as "horas dançantes"
e os bailes de gala. Já para a população mais pobre, a diversão acontecia
mesmo na rua, proporcionada pelas apresentações do cine grátis.
Anos 60 e 70
O progresso avança pela cidade
O
crescimento econômico transformou o perfil de Belo Horizonte na década de
60. Sem respeito pela memória da cidade, o progresso avançou sobre suas
ruas, demolindo casas, erguendo arranha-céus, derrubando árvores, cobrindo
tudo de asfalto. Já não era possível reconhecer a "Cidade-Jardim"
que tanto encantara os poetas; a cidade verde tinha ficado no passado. Era
preciso desafogar o trânsito e as avenidas rasgavam cada vez mais o tecido da
cidade. Até o "Pirulito" foi retirado da Praça Sete, como parte
das transformações radicais, e foi deixado no Museu Abílio Barreto.
A descaracterização da cidade fez-se sem remorsos. Se os espaços verdes
desapareciam, se a beleza das antigas construções era transformada em pó,
em seu lugar surgiam edifícios modernos, novas e novas indústrias.
Os anos 60 foram marcados pelo crescimento das indústrias e das instituições
financeiras. Nessa época, Belo Horizonte começou a irradiar seu crescimento
e suas cidades vizinhas também receberam muitos investimentos e fábricas.
Esse progresso, contudo, não se fez sem o agravamento das desigualdades e
problemas sociais. O surgimento de inúmeras favelas comprova o desequilíbrio
causado pela concentração de renda.
Mas, não foi somente o desenvolvimento econômico que modificou a rotina de
Belo Horizonte. A instauração da ditadura militar, após o Golpe de 64, também
levou a população às ruas. Primeiro foram as mulheres católicas que com
seus terços em punho, apoiaram o "movimento que nos livrara do perigo
comunista". A manifestação foi denominada a "Marcha da Família
com Deus pela Liberdade". Mais tarde, vieram os estudantes dessa vez,
protestando contra a falta de liberdade, o desrespeito aos direitos humanos e
constitucionais. Inúmeras vezes, a Praça Sete assistiu à multidão ser
dispersada com bombas e a prisão de manifestantes. Em 1978, seria a vez da
campanha pela anistia dos presos políticos mobilizar os belo-horizontinos.
Na década de 70, a cidade era o próprio retrato do caos. Com um milhão de
habitantes, belo Horizonte continuava crescendo desordenadamente. Nas regiões
norte e oeste e nos municípios vizinhos, com a criação de distritos
industriais e a instalação de empresas multinacionais, a população
tornou-se cada vez mais densa. Na tentativa de resolver os problemas causados
pela falta de planejamento, foram tomadas várias medidas: criou-se o Plambel
e instituiu a Região Metropolitana de Belo Horizonte.
A política de crescimento econômico acelerado, porém não resolvia os
problemas sociais. A crise prolongada e os baixos salários levaram a população
mais uma vez às ruas, já no final da década. Professores da rede pública e
operários da construção civil, paralisando a cidade na greve de 1979,
mostraram seu descontentamento com relação aos problemas econômicos e
sociais, mas também em relação ao regime militar.
Anos 80 e 90
Os cidadãos redescobrem Belo Horizonte
A
chegada dos anos 80 marcou o início de uma mudança nas relações do
belo-horizontino com sua cidade. O crescimento desordenado e os problemas de
perda de importantes marcos da história de Belo Horizonte, a degradação
ambiental e as desigualdades sociais, foram pouco a pouco, tornando-se algumas
das maiores preocupações dos cidadãos. A consciência de que é preciso
cuidar da cidade, ao mesmo tempo permitindo seu desenvolvimento e garantindo a
qualidade de vida de seus habitantes, difundiu-se cada vez mais entre a população.
Foi ao longo da década de 80 que o belo-horizontino redescobriu o espaço das
ruas, fazendo dele o palco de suas manifestações, de seus protestos e de
suas artes. Em 1980, milhares pessoas tomaram a Avenida Afonso Pena e a então
Praça Israel Pinheiro (hoje, Praça do Papa) para receber o próprio Papa João
Paulo II. Em 83, diversas entidades e cidadãos saíram às ruas para
protestar contra a demolição do prédio do Cine Metrópole, defendendo seu
tombamento pelo Patrimônio Histórico. Em 84, a multidão lotou a Praça da
Rodoviária para dar força à campanha "Diretas Já", participando
do comício que reuniu nomes como Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Brizola
e Lula. Um ano depois, os mesmos manifestantes chorariam a morte do recém-eleito
presidente Tancredo Neves, acompanhando seu velório no Palácio da Liberdade.
Mais recentemente, em 92, seria a vez dos jovens "cara-pintadas"
protestarem contra a corrupção e exigirem o impedimento do presidente
Fernando Collor.
Uma mentalidade diferente daquela que orientou o crescimento nas décadas
anteriores começava a surgir. As obras realizadas na cidade ganharam nova
direção. Em 1981, adotou-se um novo sistema de transporte, na tentativa de
melhorara situação do trânsito na cidade. Foi iniciada a implantação do
metrô de superfície como uma alternativa rápida, segura e menos poluente
para o transporte de massa. Em 84, a canalização do Ribeirão Arrudas, que
está sendo concluída agora em 1997, pôs fim ao problema das enchentes que
todos os anos causava prejuízos ao centro da capital.
A memória da cidade começou a ser mais valorizada, com o tombamento de vários
edifícios de importância histórica. A população ganhou, ainda, diversos
espaços de lazer, como o Parque das Mangabeiras, inaugurado em 82, e o
Mineirinho. A área de saúde também experimentou grandes avanços com a redução
do número de casos de poliomielite e tétano, graças às campanhas de vacinação
infantil.
Ainda assim os problemas não desapareceram. A Pampulha, um dos principais
cartões-postais da cidade, era uma lagoa praticamente morta, tão poluída
estavam suas águas. Uma praga de aguapés havia tomado conta de quase toda a
superfície da lagoa, reproduzindo-se descontroladamente e provocando um
desequilíbrio ecológico.
Na década atual, a valorização do espaço urbano teria continuidade. Em
1990, a Lei Orgânica do Município foi aprovada, trazendo avanços em
diversos setores sociais. Em 92, criou-se o Conselho Deliberativo do Patrimônio
Cultural do Município para tratar do tombamento de construções de valor
histórico. Espaços como a Praça da Liberdade, a Praça da Assembléia e o
Parque Municipal, que se encontravam abandonados e desvalorizados, foram
recuperados e a população voltou a frenqüentá-los e a cuidar de sua
preservação. Em 96, o Plano Diretor da cidade e a Lei de uso e Ocupação do
Solo passaram a regular e ordenar o crescimento da capital.
A cultura passou a ser valorizada como um instrumento de conquista da
cidadania. Assim, surgiram inúmeros projetos com o objetivo de popularizar a
arte. O Grupo de Teatro Galpão é um dos que levam seus espetáculos às
ruas. Com ele surgiu a iniciativa do Festival Internacional de Teatro Palco e
Rua. Na dança, há os exemplos dos grupos 1º Ato e Corpo. Na música, o
Coral Ars Nova, já se apresentou em todos os continentes e venceu diversos
concursos internacionais de coros, e o Grupo Uakti, principal grupo de música
instrumental e experimental do Brasil.
(Fonte:
PBH)